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Adwaita Chandra

 

 

 

 

 

 

Vanavihari Devi Dasi

 

O coronel Marcos concedeu essa entrevista à Revista Volta ao Supremo em Belo Horizonte (MG), na sala de sua casa, acompanhado de sua família, depois de um saboroso almoço. Era 1995, e o tema da entrevista girou em torno de como aplicar o conhecimento védico no combate à violência. De lá para cá, o que mudou no cenário foi que a violência avançou. Mas suas observações sobre a violência continuam bem atuais.

Natural de Belo Horizonte, na época com 49 anos, dos quais 30 dedicados à Polícia Militar, Marcos Spagnuolo Souza, ou coronel Marcos como é mais conhecido, é iniciado nos estudos e nas práticas do conhecimento védico numa escola de sucessão discipular. Seu nome de iniciado é Krishna Dhyana Dasa, e o nome de seu mestre é Hridayananda Das Goswami.

Coronel Marcos também é administrador de empresas, professor mestre em História e ex-professor de Economia na Faculdade de Filosofia e Letras de Belo Horizonte. Foi assessor dos governadores Rondon Pacheco e Hélio Garcia. Em 1988, ocupou o cargo de assessor parlamentar constituinte em Brasília.

Possui alguns livros publicados, em que se destacam Os cátaros; A gnose na mitologia grega; A filosofia védica, e Vidia alma. Do casamento com Elizabete Herzog tem dois filhos – Luciano e Daniel, que na época da entrevista tinha 19 e 13 anos, respectivamente.

vanavihari: Como o senhor passou a se interessar pela filosofia Védica?

Coronel Marcos: Quando eu era estudante de História, com pouco mais de 20 anos, fazia muitas pesquisas. Notei que o fundamento de um fato histórico era a cultura.

Pesquisando ainda mais, cheguei à conclusão de que a cultura é o fruto maduro de uma religião. Parti, então, para um profundo estudo comparado das religiões, com base na metodologia científica.

Constatei que elas possuíam dois pontos em comum: a devoção a Deus e o afastamento do mundo. Decidi, por fim, procurar a origem das religiões na filosofia pura e percebi que essa origem estava no Oriente.

Já bem convicto de que a filosofia ocidental nada mais era do que apenas fragmentos da filosófica oriental, então, a abandonei por completo. Na filosofia oriental notei duas grandes correntes: uma impersonalista e outra personalista.

Percebi que meu ser tinha necessidade de alimentar da personalista. Porque ela indica o caminho a ser trilhado pela alma para um contato íntimo com Deus. E porque tudo no Universo tem personalidade, tem forma.

vanavihari: Seus valores espirituais nunca entraram em choque com a PM?

Coronel Marcos: Não. A cultura espiritual védica indica um comportamento através da obediência a certos princípios morais e éticos. Quem os segue é um espiritualista em qualquer lugar.

vanavihari: Seus princípios religiosos teriam influenciado, de certa maneira, alguma mudança na Polícia Militar de Minas Gerais no trato com a violência?

Coronel Marcos: A doutrina da polícia não passa de técnicas e táticas de combate à criminalidade. Não se trata de uma instituição fundamentada em abordagens filosóficas.

Apesar de ser coronel da Polícia Militar, minha esfera de influência no aspecto religioso é diminuta. Minha contribuição não passou de inúmeros exemplares do Bhagavad-gita e outros tantos do Srimad-Bhagavatam, doados à biblioteca da Academia da PM.

E, quando era instrutor da Academia da Polícia Militar, sempre frisava que antes de se entrar em combate com um criminoso, deve-se ver nele um irmão, pois Deus está no coração de todos. Também tenho alguns colegas que introduzi no estudo do Bhagavad-gita e da Filosofia Védica.

Vanavihari: Que comentário o senhor faz sobre a situação em que encontra a violência nas grandes cidades, como o Rio de Janeiro, por exemplo.

Coronel Marcos: Hoje, nas grandes cidades, existe uma guerra não entre malfeitores e a polícia, mas entre a sociedade organizada e as pessoas que desrespeitam essa sociedade. Uma guerra é cruenta.

Contudo, em toda guerra também deve haver lei. Um policial tem que respeitar a vida do bandido. Deve entregá-lo preso ao sistema judiciário, que o julgará e o enviará ao presídio.

Como praticante da Filosofia Védica, sou contra qualquer tipo de violência. Porém entendo que temos de melhorar as instituições brasileiras de defesa social, que englobam Polícia Militar, Exército, Polícia Civil, sistema judiciário e sistema penitenciário.

A calamidade que ocorre no Rio de Janeiro e em todo o Brasil hoje, em termos de defesa social, é resultado da política governamental. Durante mais de 20 anos e até bem pouco tempo, a única preocupação era somente com a segurança nacional.

 

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* Trecho da entrevista publicada na Revista Volta ao Supremo, no. 7, 1995; Sâo Paulo: Fundação Bhaktivedanta